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quinta-feira, 16 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 7

08/01/2008

                  Com o velocímetro do troller marcando 23.050 km, deixamos Sarmiento por volta de oito e meia da manhã.
prospecção de petróleo 
                  Já na estrada, no meio dos campos áridos do deserto patagônico, descobrimos aquela que deve ser a razão da existência da cidade que acabávamos de deixar: máquinas e mais máquinas de prospecção de petróleo, trabalhando a todo vapor. Tiramos fotos. Nunca havíamos visto de perto essas máquinas. Mais na frente, uma estrutura industrial da Petrosar S/A, a Petrobrás da Argentina. Deve ser um local de distribuição, porque havia vários caminhões parados no pátio.
                   Um animal, que parece um veado, típico daquela região, atravessou a pista à nossa frente, no galope. Paramos o carro e o vimos retornando para se juntar a um grupo deles, que brincavam no campo seco. Bati uma foto, mas não consegui pegar direito. Fiquei lamentando, mal sabendo que veríamos centenas deles pelas estradas da Patagônia.
                    Da estrada, vimos, do alto, a cidade de Comodoro Rivadavia, onde tínhamos planejado dormir na noite anterior. Ela fica à beira-mar, agora na Oceano Atlântico, mais precisamente defronte ao Golfo San Jorge. Vimos, no guia, que a cidade tem mais de 200 mil habitantes e é responsável por 30% da produção petrolífera da Argentina. Tem uma localização estratégica entre o norte e o sul da Patagônia. Fica naquela parte mais estreita da América do Sul. É uma cidade portuária e há uma estrada que liga a cidade à sua equivalente chilena, voltada para o Pacífico, para facilitar o transporte de mercadorias de uma lado para o outro do continente.
Comodoro  Rivadavia
                   Paramos num posto YPF, na entrada da cidade de Caleta Olivia, ainda à beira-mar. Compramos sanduíche para o caminho e abastecemos o carro.A estrada distanciou do mar e a solidão do deserto aumentou. Peguei o volante e dirigi cerca de 160 km. Em parte desse percurso, a ruta estava em obras, passei por um desvio em estrada com rípio e trechos esburacados. Depois, voltou a estrada reta, quase sem curvas, monótona, sem acostamento, mas com pista regular, possibilitando desenvolver boa velocidade. Me deu sono e devolvi o volante ao motorista principal.
                   Paramos novamente em Puerto San Julian, num moderno posto YPF. Moderno, mas carente de estrutura. Demorou para conseguirmos atendimento e tivemos que nos contentar com sanduíches já prontos, que estavam na vitrine, já que não havia ingredientes para fazer nada diferente. Compramos para levar o que havia disponível: batatas fritas, coca-cola, chocolate e haws. O lanchinho custou 29,80 pesos. O troller tinha rodado, desde a última parada, 351 km e abastecemos novamente porque não sabíamos se encontraríamos diesel mais a frente.
                   Pelo mapa, verificamos que já não haveria nenhuma cidade mediana até Rio Gallegos. Percebi que Tavinho estava com sono, pedi o volante, mas ele custou a entregar os pontos. Como o conheço bem, calcei meu tênis e fiquei aguardando. Não deu outra: um pouco à frente, ele capitulou. Foi bom porque ele conseguiu dormir um pouco enquanto eu dirigia. O deserto continuava firme e o vento também.Naquela solidão do deserto patagônico, verifiquei, no velocímetro, que estávamos completando 8.000 km de aventura. Eu não estava ainda com a menor vontade de regressar. Estava fascinada com o passeio, que superava a minha expectativa. Quanto a Tavinho, ele estava louco para chegar a cidade de Ushuaia, conhecida como Fim do Mundo, que era nosso objetivo principal. Parece que meu companheiro não estava curtindo muito aquela paisagem desoladora.
                 Chegamos a Rio Gallegos às 18 horas. Entramos na cidade e fomos em busca do hotel que havíamos escolhido no guia. Não havia vaga. Saímos para procurar e logo encontramos dois bem próximos, que tinham apartamentos vagos. Optamos pelo que tinha o quarto mais confortável, porque o outro tinha cheiro de mofo. Só lamentamos porque no insalubre havia internet e no aprazível não. Paciência. O hotelzinho escolhido chama-se Nevada e fica bem em frente a um posto YPF, onde fizemos um lanche e planejamos tomar o desayuno no dia seguinte, já que o serviço não estava disponível no hotel. O Nevada fica na Rua Zapiola número 480, é bem simples, mas o quarto é amplo e tem TV a cabo, único luxo disponível. Mesmo assim, custou-nos 150 pesos, pagos adiantados, conforme costume nesses lugares de passagem.
                 Após nos instalarmos no hotel, fomos dar uma voltinha pela cidade. Inicialmente, saímos à pé, mas o vento gelado nos fez retornar para buscar o jipe. Chegamos até a avenida costeira, que margeia o Rio Gallegos. A cidade não é bonita, mas tem comércio significativo, um monte de hotéis e, parece, que a economia vem da exploração do petróleo.
                 Descansando no hotel, verificamos que no dia seguinte, chegaríamos ao Fim do Mundo, com a permissão do Alto. Tínhamos um trajeto complicado pela frente. Para chegar a Ushuaia, tínhamos que passar por duas alfândegas, pegar uma balsa, depois uma estrada de rípio e outra em más condições. Mas, o que mais nos preocupava, era a burocracia das aduanas. Contávamos com a nossa sorte e com os relatos de quem havia estado lá. Todos diziam que os percalços valiam a pena e que no trecho final da estrada, a paisagem é deslumbrante. Agora já estávamos próximos à Terra do Fogo, mas o vento forte que nos perseguia desde a entrada na Patagônia ainda continuava. Pelo jeito, deve ser assim até o final da estrada, no Fim do Mundo, já que descobrimos que o vento vem da Antártica.

09/01/2008

                  O jipe estava com 23.939 km, o que significava que tínhamos rodado 889 km, de Sarmiento a Rio Gallegos. A distância real é um pouco menor do que consta nos mapas. Saímos do hotel Nevada às 08h40m, após o café da manhã no posto. Na estrada, passamos por três carros brasileiros, de Santos e Guarujá. Eles entraram em uma estrada secundária em direção à Laguna Azul. A curiosidade nos fez pensar em segui-los para ver o que haveria lá de interessante, mas como não achei nenhuma referência nos guias a essa laguna, seguimos em frente.
                  Na fila da aduana, havia cerca de vinte carros à nossa frente. Essa aduana e a seguinte, tomou duas horas do nosso tempo, assim mesmo porque o senhor paranaense que já tínhamos encontrado antes descobriu que nós, brasileiros, estávamos dispensados de uma das filas. Foi ótimo e demos a dica para o grupo de Santos, que também estava na fila esperando.
Atravessando o estreito de Magalhães
                  Chegamos ao Estreito de Magalhães, onde entramos em outra fila, para esperar a balsa. Fomos à hosteria, que fica à margem, e pedimos um chocolate caliente. A moça nos serviu um leite quente com um tablete de chocolate. Bueno! Misturamos o tablete no leite e ficou bom. Custou 1600 pesos. O senhor paranaense, cuja idade estimamos em pouco mais de 65 anos, já havia feito amizade com um argentino, que reside em Ushuaia. Pelo mapa, havia duas alternativas para chegar ao nosso destino, mas decidimos optar pelo caminho do argentino, que devia saber qual a melhor opção.
                   O local da balsa é Punta Delgada (Chile). Do outro lado, na ilha, é Bahia Azul. Chegando a nossa vez na fila, colocamos o carro na balsa e fomos para a parte posterior do barco assistir o show das baleinhas, que ficam saltando. Tiramos fotos, mas é difícil flagrá-las no momento certo. Pagamos 12.000 pesos pela travessia do Estreito de Magalhães. O canal separa o arquipélago, que constitui a Terra do Fogo, do extremo sul do continente sul-americano. Tem esse nome em homenagem a Fernão de Magalhães, o navegante português que foi o primeiro europeu a atravessar o estreito, em 1520.
                   Após a travessia, passamos pelas duas aduanas seguintes sem qualquer problema. Como a estrada inicial era de rípio, nosso valente 4x4 levou vantagem sobre os demais, ultrapassamos todos e chegamos à frente nas aduanas. O nosso amigo paranaense passou-nos o nome do hotel em que ele reservara lugar, em Ushuaia. Assim, quando chegamos na cidade de Rio Grande, ligamos e conversei com a proprietária do mesmo. Entendi que havia lugar e que tínhamos garantido uma reserva. Era janeiro e temíamos ter problemas de hospedagem na cidade, dado o sem número de turistas que descem pra lá nessa época.
Monumento das Malvinas em R.Grande
                   Rio Grande é uma cidade estratégica. De lá, saiu a aventura argentina em busca das ilhas Falklands, que os hermanos teimam que são argentinas e denominam Malvinas. Há um monumento em homenagem aos mortos da guerra e, pela cidade e nas rodovias próximas, há placas dizendo: LAS MALVINAS SON ARGENTINAS. Pelo que vimos, esse sonho não vai acabar tão cedo.
Tivemos que parar pra ver a paisagem
Só paramos na cidade para abastecer, comprar lanche (media lunas e coca-cola, para variar) e fotografar, rapidamente, o monumento da guerra das Malvinas. Seguimos nosso caminho, ansiosos para vencer a última etapa que nos separava da cidade de Ushuaia. A paisagem já tinha melhorado, passamos a ver o verde, algumas árvores e, ao longe, de novo os picos nevados. Agora, sim, estávamos na Terra do Fogo, assim chamada porque os colonizadores, ao chegarem a essas terras, viram índios com fogueiras acesas para se aquecerem do frio inclemente. Os índios não existem mais, mas o nome ficou. A paisagem foi ficando cada vez mais bonita. Paramos duas vezes no caminho para tirarmos fotos. De novo, os montes nevados e lagos e também o mar. Passamos por um lago belíssimo denominado Paseo Garibaldi. Será que o herói italiano passou também por aquelas plagas?
                    Pelo nosso mapa, o asfalto acabaria em Talhuim, mas vimos que ele estava desatualizado, uma vez que fomos pelo asfalto até nosso destino. Menos mal.
USHUAIA
                    Ao contrário de um grande número de viajantes com os quais conversamos, o tamanho da bela Ushuaia não nos surpreeendeu. Havíamos lido muito sobre ela. Pelas informações do guia, o número de habitantes da cidade é 65.000, mas, ela está permanentemente acrescida de milhares de turistas. A atração de chegar à cidade mais meridional da Argentina e do continente americano, a apenas 1.000 km da Antártida, desafia um número fantástico de turistas do mundo inteiro. O Chile tem uma base militar, denominada Puerto Williams, que fica um pouquinho mais ao sul, então os dois países polemizam sobre o assunto, mas concluímos que o privilégio vai continuar mesmo com a Argentina, porque Ushuaia é realmente uma cidade fascinante.
                   Ao chegar, fomos em busca do hotel contatado em Rio Grande. Lá chegando, descobrimos que não havia vaga, o que a proprietária havia me dito é que nos levaria a um conhecido que ainda tinha disponibilidade em seu estabelecimento. Às vezes, a conversa em portunhol dá margem a conclusões equivocadas.  Resolvemos ir com ela porque ficamos com medo de não achar vaga. Pelas conversas do caminho, já sabíamos que era comum os hotéis ficarem lotados na região. De fato, conseguimos a hospedagem em um apart confortável, com aquecimento, bastante amplo, mas sem TV, nem internet.
                Instalamo-nos e fomos à rua. Tavinho queria ligar para sua mãe e também queríamos contatar nossos familiares e amigos na Internet. Fomos a uma lan house, a um caixa do Banco da Patagônia para sacar dinheiro e, por fim, escolhemos , ao acaso, a cantina Fueguina de Freddy para jantar. Fica na Av. San Martin, 326. Curioso que todas as cidades argentinas tem avenida com o nome do seu festejado herói.
Na hora de voltar ao hotel, descobrimos que havíamos perdido o mapa fornecido pelo proprietário, não sabíamos o nome do hotel, nem a rua. Provavelmente, o mapa tinha voado pela janela do carro. Também na Terra do Fogo venta bastante.
                Rodamos por um bom tempo, até conseguirmos localizar o hotel. Felizmente, depois de passarmos infinitas vezes ao lado da rua do mesmo, viramos pro lado certo e o encontramos. Agradeci novamente aos meus anjos. Cheguei a pensar que iríamos dormir no carro, já que vaga em outro hotel provavelmente não encontraríamos.

10/01/2008

              O dia em Ushuaia  foi cheio. Pela manhã, fomos a uma cafeteria na Rua San Martin para o breakfast porque no apart não tinha.
                 Seguimos então para o Parque Nacional Tierra Del Fuego, que fica a 11 km da cidade, seguindo pela Ruta 3, na direção de Lapataia, à beira do Canal de Beagle, pertinho da fronteira com o Chile.  O parque, que tem 63 mil hectares,  tem paisagens bonitas, com muita vegetação, vários lagos e vales com trilhas para os interessados explorarem. Na entrada, os viajantes recebem um mapa, com as indicações das trilhas e o nível de dificuldade.
                     Percorremos de carro a estrada asfaltada que corta o parque e paramos no ponto máximo para tirar fotos. Nesse local, há placas indicando se tratar do final da Ruta 3 e o visual é fascinante. 
                Saindo do parque voltamos à cidade para percorrer seu famoso comércio da Rua San Martin. Embora a cidade seja zona franca de comércio, os preços de eletrônicos, perfumes e artigos importados não são muito atraentes. A explicação é que, embora haja isenção de impostos, o preço do traslado, devido à distância, termina encarecendo os produtos. Mas, os produtos argentinos e mesmo alguns de grifes estrangeiras são mais baratos que no Brasil, mesmo porque o câmbio estava e continua bem favorável para nós.
              Compramos alguns presentes e souvenirs e depois fomos almoçar. Escolhemos um dos restaurantes recomendados pelo guia, o Gustino, que fica na Av. Maipu, 530 e comemos de entrada truta marinada e, como prato principal, cordeiro fueguino, escolha também sugerida pelo guia. Estava bom, mas para o meu gosto, com pouco sal na carne.
Vista de Ushuaia. Maravilhosa!
               Defronte ao restaurante, há um centro de artesanato, onde comprei um cachecol, que foi muito útil e uma lembrancinha para a mana Regina.
           Após o almoço decidimos ir de carro até o Glaciar Martial. Fomos até a base do teleférico e compramos os ingressos para a subida: 25 pesos cada um. Fazia muito frio, coloquei meu cachecol e o gorro mapuche que eu comprara uns dias antes. Faltaram as luvas, que não tínhamos - e como fizeram falta!. O frio lá em cima estava por volta de 4 graus, como informou o funcionário do parque. No final da viagem pelo cabo, para chegar até a geleira, seria necessário caminhar cerca de duas horas, mas decidimos, por razões óbvias, ficar só até o fim da linha. Tiramos fotos da bela paisagem e enfrentamos a volta no teleférico, quando já estava mais frio ainda, uma vez que estava mais tarde. Ao chegar em baixo, tomamos um chocolate regenerador, no barzinho que existe no local.
No Glaciar Martial
               Voltamos ao hotel  para programarmos a agenda e descansar um pouquinho. Queríamos fazer umas comprinhas e então fomos novamente para o centro da cidade. Comprei alguns souvenirs para a galera, uma camiseta branca para o Gustavo jogar tênis e Tavinho comprou várias camisetas da sua marca preferida, que estavam bem mais baratas que no Brasil.
                 Fomos ao Centro de Informação ao Turista, na Secretaria de Turismo de La Municipalidad de Ushuaia, na mesma Av. San Martins, onde cumprimos o ritual dos viajantes que chegam no local: carimbamos o nosso passaporte com os carimbos de USHUAIA, "A CIUDAD MAS AUSTRAL DEL MUNCO". Providência indispensável!
                   Já era final do dia e entramos na Laguna Azul, a mesma cafeteria onde havíamos feito o desjejum para um lanche reforçado. Voltamos cansados para o hotel e eu só tive coragem para registrar os acontecimentos no diário e conversar rapidamente no MSN com minha amiga Maria Amélia. Foi bom que fiquei sabendo que estava tudo bem em nossa terra.
                  Meio a contragosto, concordei em partir no dia seguinte para Puerto Natales, no Chile. Eu queria ficar mais um dia para visitar os  vários museus, sobre os quais havia tido informações interessantes e também conversar um pouco com o pessoal do lugar. Ficou para uma próxima vez...



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