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quarta-feira, 15 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 6

 05/01/2007

             Terminamos saindo meio tarde de Puerto Montt. O relógio marcava 09h10m e o velocímetro do jipe 21.781 km.
         Pegamos a Ruta 5, em direção a Osorno, onde mudamos de estrada. Pelo caminho, fomos nos despedindo da majestade do vulcão Osorno, cuja visão imponente nos acompanhou por grande parte do caminho. A imagem dos vulcões e picos nevados dos Andes é maravilhosa para nós, que não temos nada parecido no Brasil.
       Passamos pela alfândega argentina sem problemas. A fila estava pequena e tivemos sorte. Só apresentamos os documentos e fomos liberados. Vimos os policiais revistando alguns carros, mas com o nosso, nem pediram para parar. Embora estivéssemos com tudo regular, perder tempo com revista é sempre um aborrecimento. Meus anjos estavam de plantão.
Praça central em Bariloche
             No meio do caminho, deparamos com Vila La Angostura, bela cidadezinha que, segundo lemos, é o balneário da elite argentina, uma vez que Bariloche foi tomada pelos turistas. Era o refúgio de Perón, nos seus tempos de glória. Não paramos, decidimos ir direto para Bariloche.
           San Carlos de Bariloche localiza-se na província de Rio Negro, Distrito dos Lagos e é mais ou menos como eu imaginava. A beleza do lago Nahuel Huapi torna a paisagem muito linda. O casario quase todo no estilo alemão, as cores alegres, as ruas bem cuidadas, imprimem um ar festivo à cidade. Chegamos num sábado e a cidade estava tomada de turistas. Fomos para a avenida que margeia o lago e não encontramos hotel: ou não tinham vaga ou eram caríssimos. Resolvemos procurar no centro da cidade e terminamos encontrando lugar no Blue Tree, que fica na rua San Martin, uma das principais artérias da cidade. Achamos caro (300 pesos mais taxas), mas decidimos ficar, cansados que estávamos. O apartamento tinha frigobar, luxo que não dispúnhamos, se não me falha a memória, desde que saímos do Brasil. Aliás, esse foi um ponto que nos chamou atenção. Em nosso país, talvez pelo clima, os hotéis de médio para cima, têm frigobar. Já no Chile e Argentina, só nos de categoria superior. O nosso apartamento era no subsolo e não pegava a internet. Para nos conectarmos, tivemos que ir ao saguão do hotel. Um dos gerentes do hotel é brasileiro, de São Paulo, chama-se Lauro e foi muito simpático. Disse-nos que está na rede hoteleira há dez anos, já tendo passado por Brasília e várias outras cidades.
Na linda Bariloche
               Para variar, encontramos vários brasileiros. Um paranaense, que estava com a família e já havíamos visto na fronteira, estava procurando hotel e terminou indo para o nosso. Também vimos parte dos integrantes de um grupo que saiu de Goiânia. A maioria deles é do Norte, de Manaus. Tavinho havia conversado com um deles, em Goiânia. Os companheiros tinham despachado os jipes até nossa cidade e a caravana saiu de lá. Eles estavam no caminho inverso, partiriam em seguida para o Chile. Estavam loucos para ver neve de perto e pegar no gelo. Falamos para eles de Pucón e do vulcão Villarica, onde subimos e fotografamos bastante gelo. Ficaram empolgados e disseram que iriam passar por lá.
               Tínhamos visto, ao chegar ao hotel, o outro troller verde, que vimos nas ruas de Pucón. Mais uma vez não conseguimos encontrar seus ocupantes. Quando voltamos da rua, eles tinham feito o check out e, mais tarde, vimos novamente o carro sem os ocupantes. A placa é de Curitiba e pensamos que provavelmente estariam fazendo roteiro semelhante ao nosso e talvez mais pra frente poderíamos encontrá-los.
                Logo que chegamos ao hotel, antes mesmo de tomarmos posse do nosso apartamento (ele estava sendo desocupado e preparado pelas camareiras) fomos almoçar num restaurante próximo. Tavinho estava ansioso para comer um bife de chorizo. Comemos bem, só não conseguimos tomar cerveja gelada. Pedimos um balde de gelo, mas não adiantou muito, já que as danadas estavam quentes mesmo. Ao chegarmos ao hotel, Lauro nos serviu uma quase perfeita. Ele se divertiu porque está acostumado com o gosto dos brasileiros. 
                Fomos dormir pensando em descobrir, no dia seguinte, tudo o que havia de melhor em San Carlos de Bariloche, cujo apelido é Brasiloche, porque é o destino principal dos brasileiros na Argentina.

06/01/2008

              No dia seguinte, pegamos nosso carro, com o velocímetro assinalando 22.152 km e fomos explorar a cidade.
          Logo chegamos à conclusão que San Carlos de Bariloche merece a fama que tem. A cidade realmente parece cartão postal. Da avenida principal, que corre acima da Av. 12 de Outubro, que é a que margeia o lago, de todas suas travessas, avista-se o lago Nahuel Huapi, porque todas as ruas transversais são em aclive. O visual é maravilhoso!
             O nosso hotel localiza-se nessa avenida principal, a Jose San Martin. Ao longo da avenida estão instaladas as principais casas de comércio, todas elas voltadas para o atendimento aos turistas. Há uma profusão de lojas de souvenirs e muitas casas de chocolate, que é o ponto alto do comércio local.

Onde compramos souvenirs

          Depois de um agradável café da manhã – bufet com frutas, pães, queijo, suco (finalmente), resolvemos acatar a sugestão do gerente brasileiro do nosso hotel e saímos para conhecer os Cerros (parques) principais da cidade.Pegamos a avenida costeira e fomos primeiro ao Cerro Campanário. O caminho tem paisagens lindíssimas e miradores (mirantes) estratégicos. Num deles, havia várias barraquinhas de ambulantes vendendo souvenirs. Comprei uns imãs de geladeira de uma baiana, que disse-nos estar há treze anos na Argentina. Comprei também um porta moedas. No país dos hermanos e no Chile o uso de moedas é mais disseminado que no Brasil.
              Erramos o caminho e fomos parar no belo hotel Liao Liao, o mais luxuoso da cidade, que oferece até campo de golfe aos privilegiados hóspedes, sem contar a vista maravilhosa das montanhas e do lago. É isso. Bariloche é banhada pelo belíssimo lago Nahuel e cercada de montanhas e bosques. É realmente uma natureza exuberante.

           Subimos pelo teleférico no Cerro Campanário, morro de 1.050 metros. Lá no alto há uma cafeteria, onde, com surpresa, tomamos um bom café, artigo raro na Argentina. A vista é muito linda.

Paisagem linda do Campanário


No teleférico do cerro Otto
               Do Cerro Campanário fomos direto para o majestoso Cerro Catedral, onde, no inverno, estão as mais famosas pistas de esqui de Bariloche. Sobe-se de teleférico, em duas etapas e a altura é muito maior. Lá são 2.000 metros de altitude e a vista é deslumbrante. Vê-se o lago Nahuel, com suas ilhotas, as montanhas com os picos nevados e toda a vegetação maravilhosa da cidade. Passeio imperdível para quem vai a Bariloche.
              Para completar o circuito, fomos em seguida ao Cerro Otto, esse mais próximo da cidade. Pode-se subir de carro, mas preferimos o teleférico que, ao contrário dos outros, é composto de cabines fechadas para quatro pessoas. Subimos com um casal brasileiro, de Natal/RN, que estava em lua de mel. Ele é fotógrafo e tirou fotos nossas, que ficaram boas, naturalmente. Decidi fazer um curso de fotografia quando voltar. Estava cansada de apanhar da câmera. A maioria de nossas fotos ficam boas, por sorte, já que não entendemos nada da regulagem das máquinas. A digital é fácil, mas mesmo assim requer alguns conhecimentos que não temos. Naquele dia, pela manhã, quase compramos outra máquina porque não conseguíamos ver a imagem no visor e pensamos que ela tinha pifado. Só não chegamos a efetuar a compra porque a loja não aceitava cartão e quando conseguimos efetuar o saque, resolvemos passar em outra loja. Lá, por sorte, havia um atendente honesto que deu uma regulada rápida e nos devolveu a máquina em perfeitas condições. Na loja anterior, o rapaz nos tinha dito que não tinha conserto. Como sempre, contamos com a ajudinha providencial do meu anjinho da guarda. Digo sempre que ele é meu porque o Tavinho não comunga muito com as minhas crenças, mas termina se beneficiando delas.

No Cerro Catedral

               No Cerro Otto há um restaurante no mesmo estilo do Giratório, de Santiago. O piso gira enquanto se observa a beleza da paisagem. O sistema é o mesmo, só que a estrutura é um pouco menor e o giro total não deve durar mais que 20 minutos. Linda a vista. Valeu a pena.
               Voltamos ao hotel cansados e felizes. Descansamos, namoramos e saímos para jantar na Taberna Breogan, que fica pertinho do hotel, na mesma Av. San Martin, no número 405. É uma taberna galega (origem espanhola). Comi uma bela truta e Tavinho foi de lomo (filé) com batatas e arroz. Na Argentina, ele não dispensou a carne vermelha, que parece melhor que a nossa e, graças ao câmbio favorável, estava mais barata. Como conseguimos ver praticamente tudo o que havia de melhor na bela Bariloche, decidimos partir no dia seguinte. Faltavam ainda cerca de 2.000 km para chegarmos ao Fim do Mundo.

07/01/2008

                 Não sei dizer se são os dias ou as noites que são maiores naquela região. Mas, eu, particularmente, não conseguia dormir cedo. Assim, na noite do dia 06, quando apaguei a luz, era uma e meia da manhã, ou seja, fui dormir já no dia 07. Em conseqüência, nosso plano de deixar Bariloche às 08 horas sofreu um atraso. Saímos às 10 horas, o que terminou me agradando muito, já que curtimos novamente o belo visual da cidade, com o sol da manhã deixando seus reflexos nas águas do lago Nahuel.
Rio Foyel
                  Pegamos a Ruta 258, que segue margeando o lago por um bom pedaço. Logo que deixamos o Nahuel Huapi para trás, surgiu o lago Mascardi. Mais pra frente, paramos um pouco à margem do Rio Foyel. Água límpida, cheia de pedras, paisagem bonita. Tirei uma foto do Tavinho.
                   Logo em seguida, chegamos a El Bolson, primeira cidade de porte médio do caminho. Paramos em um posto e compramos algumas medias lunas e coca-cola para forrar o estômago. Também abastecemos o jipe.
                  Um pouco mais a frente, a paisagem mudou radicalmente. Chegamos à região dos pampas, imensamente árida, aparência de deserto sem areia, com vegetação seca. As montanhas já não tinham picos nevados. Após Gobernador Costa, onde paramos novamente para abastecer e comer um sanduíche, a paisagem ficou menos seca e passamos a ver gado pastando.
                  No entroncamento seguinte, erramos o caminho e fomos parar numa cidadezinha histórica, Jose de San Martin, que imaginamos ser o berço ou lugar importante na vida do herói argentino. O vento era muito forte na estrada e começamos a temer que ele deslocasse o carro. Vimos que faltavam cerca de 260 km para chegarmos a Sarmiento e de lá mais 150 km até Comodoro Rivadavia, que era nosso objetivo para pernoitar.
                 A paisagem voltou a ficar mais seca e o vento aumentou. A essa altura, faltavam 184 km para Sarmiento e o vento era assustador. Nunca tinha visto antes paisagem tão hostil. Tentei descer do carro, quando Tavinho, que estava dirigindo, parou um pouco para olhar o mapa e, simplesmente, não consegui. Fiquei com medo de não conseguir sustentar a porta do Troller e também de ser levada pelo vento e desisti de sair do carro.
                 Quando estávamos há 120 km de Sarmiento, olhei o relógio e vi que era já 18h50m. Cheguei à conclusão que só iríamos até lá. De tão feia e desértica, a paisagem nos pareceu fascinante, talvez pelo inusitado. A sensação que tínhamos era que a estrada não levava a lugar nenhum, que não havia ser vivo naquelas plagas. Sensação desmentida pelas placas indicativas que, de quando em quando, nos avisavam quanto faltava para chegarmos ao destino.
                 Antes de chegarmos a Sarmiento, apareceu à nossa frente o lago Musters. Avistamo-lo primeiro ao longe, após uma curva da estrada, entre as montanhas. Visão fascinante! Logo, chegamos perto e, mais uma vez, impressionamo-nos com o inusitado da paisagem. A vegetação desértica, constituída de pequenos arbustos secos, entremeados de pedras, chega até as margens do lago. Não há uma só árvore. E o vento, ali na beira do lago, aumentou de intensidade. Tavinho, preocupado com a intensidade do vento, diminuiu a velocidade do Troller. Estávamos na Patagônia, fascinados com aquele mundo agreste e, ao mesmo tempo, com um pouco de medo.
                Chegamos a Sarmiento pouco depois das 20 horas, ainda dia alto. Na entrada da pequena cidade, indicaram-nos um hotel. Havia lugar e instalamo-nos no apartamento que tinha apenas TV a cabo. Nada de internet, mas, por uma noite apenas, não faria falta. Na breve voltinha que demos pela cidade, continuamos impressionados com a constância do vento. É incrível o barulho que ele faz e não consegui imaginar como seria viver num lugar assim. A proprietária do hotelzinho disse-nos que é assim o ano inteiro. Nas ruas, há movimento permanente de folhas voando, poeira levantando e objetos sendo levados pelo vento. Fiquei imaginando o trabalho que deve ser manter uma casa limpa. Tavinho concluiu que não deve existir a profissão de gari naquela região porque seria realmente um trabalho inútil, já que o movimento contínuo do vento desloca tudo do lugar, sem trégua.
                  Escrevendo no quarto do hotel, verifiquei que já eram 23h20m, horário de verão na Argentina e mesmo horário no Brasil. O sol tinha ido embora não fazia muito e, pela janela, vi que o céu ainda estava com as luzes avermelhadas do poente. Terra estranha aquela! Tínhamos rodado, no dia, 755 km e para o dia seguinte planejamos ir até Rio Galegos, mais de 900 km. Àquela altura, sem muita informação sobre o caminho, não tínhamos a menor idéia se conseguiríamos atingir o objetivo.

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