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quarta-feira, 15 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 6

 05/01/2007

             Terminamos saindo meio tarde de Puerto Montt. O relógio marcava 09h10m e o velocímetro do jipe 21.781 km.
         Pegamos a Ruta 5, em direção a Osorno, onde mudamos de estrada. Pelo caminho, fomos nos despedindo da majestade do vulcão Osorno, cuja visão imponente nos acompanhou por grande parte do caminho. A imagem dos vulcões e picos nevados dos Andes é maravilhosa para nós, que não temos nada parecido no Brasil.
       Passamos pela alfândega argentina sem problemas. A fila estava pequena e tivemos sorte. Só apresentamos os documentos e fomos liberados. Vimos os policiais revistando alguns carros, mas com o nosso, nem pediram para parar. Embora estivéssemos com tudo regular, perder tempo com revista é sempre um aborrecimento. Meus anjos estavam de plantão.
Praça central em Bariloche
             No meio do caminho, deparamos com Vila La Angostura, bela cidadezinha que, segundo lemos, é o balneário da elite argentina, uma vez que Bariloche foi tomada pelos turistas. Era o refúgio de Perón, nos seus tempos de glória. Não paramos, decidimos ir direto para Bariloche.
           San Carlos de Bariloche localiza-se na província de Rio Negro, Distrito dos Lagos e é mais ou menos como eu imaginava. A beleza do lago Nahuel Huapi torna a paisagem muito linda. O casario quase todo no estilo alemão, as cores alegres, as ruas bem cuidadas, imprimem um ar festivo à cidade. Chegamos num sábado e a cidade estava tomada de turistas. Fomos para a avenida que margeia o lago e não encontramos hotel: ou não tinham vaga ou eram caríssimos. Resolvemos procurar no centro da cidade e terminamos encontrando lugar no Blue Tree, que fica na rua San Martin, uma das principais artérias da cidade. Achamos caro (300 pesos mais taxas), mas decidimos ficar, cansados que estávamos. O apartamento tinha frigobar, luxo que não dispúnhamos, se não me falha a memória, desde que saímos do Brasil. Aliás, esse foi um ponto que nos chamou atenção. Em nosso país, talvez pelo clima, os hotéis de médio para cima, têm frigobar. Já no Chile e Argentina, só nos de categoria superior. O nosso apartamento era no subsolo e não pegava a internet. Para nos conectarmos, tivemos que ir ao saguão do hotel. Um dos gerentes do hotel é brasileiro, de São Paulo, chama-se Lauro e foi muito simpático. Disse-nos que está na rede hoteleira há dez anos, já tendo passado por Brasília e várias outras cidades.
Na linda Bariloche
               Para variar, encontramos vários brasileiros. Um paranaense, que estava com a família e já havíamos visto na fronteira, estava procurando hotel e terminou indo para o nosso. Também vimos parte dos integrantes de um grupo que saiu de Goiânia. A maioria deles é do Norte, de Manaus. Tavinho havia conversado com um deles, em Goiânia. Os companheiros tinham despachado os jipes até nossa cidade e a caravana saiu de lá. Eles estavam no caminho inverso, partiriam em seguida para o Chile. Estavam loucos para ver neve de perto e pegar no gelo. Falamos para eles de Pucón e do vulcão Villarica, onde subimos e fotografamos bastante gelo. Ficaram empolgados e disseram que iriam passar por lá.
               Tínhamos visto, ao chegar ao hotel, o outro troller verde, que vimos nas ruas de Pucón. Mais uma vez não conseguimos encontrar seus ocupantes. Quando voltamos da rua, eles tinham feito o check out e, mais tarde, vimos novamente o carro sem os ocupantes. A placa é de Curitiba e pensamos que provavelmente estariam fazendo roteiro semelhante ao nosso e talvez mais pra frente poderíamos encontrá-los.
                Logo que chegamos ao hotel, antes mesmo de tomarmos posse do nosso apartamento (ele estava sendo desocupado e preparado pelas camareiras) fomos almoçar num restaurante próximo. Tavinho estava ansioso para comer um bife de chorizo. Comemos bem, só não conseguimos tomar cerveja gelada. Pedimos um balde de gelo, mas não adiantou muito, já que as danadas estavam quentes mesmo. Ao chegarmos ao hotel, Lauro nos serviu uma quase perfeita. Ele se divertiu porque está acostumado com o gosto dos brasileiros. 
                Fomos dormir pensando em descobrir, no dia seguinte, tudo o que havia de melhor em San Carlos de Bariloche, cujo apelido é Brasiloche, porque é o destino principal dos brasileiros na Argentina.

06/01/2008

              No dia seguinte, pegamos nosso carro, com o velocímetro assinalando 22.152 km e fomos explorar a cidade.
          Logo chegamos à conclusão que San Carlos de Bariloche merece a fama que tem. A cidade realmente parece cartão postal. Da avenida principal, que corre acima da Av. 12 de Outubro, que é a que margeia o lago, de todas suas travessas, avista-se o lago Nahuel Huapi, porque todas as ruas transversais são em aclive. O visual é maravilhoso!
             O nosso hotel localiza-se nessa avenida principal, a Jose San Martin. Ao longo da avenida estão instaladas as principais casas de comércio, todas elas voltadas para o atendimento aos turistas. Há uma profusão de lojas de souvenirs e muitas casas de chocolate, que é o ponto alto do comércio local.

Onde compramos souvenirs

          Depois de um agradável café da manhã – bufet com frutas, pães, queijo, suco (finalmente), resolvemos acatar a sugestão do gerente brasileiro do nosso hotel e saímos para conhecer os Cerros (parques) principais da cidade.Pegamos a avenida costeira e fomos primeiro ao Cerro Campanário. O caminho tem paisagens lindíssimas e miradores (mirantes) estratégicos. Num deles, havia várias barraquinhas de ambulantes vendendo souvenirs. Comprei uns imãs de geladeira de uma baiana, que disse-nos estar há treze anos na Argentina. Comprei também um porta moedas. No país dos hermanos e no Chile o uso de moedas é mais disseminado que no Brasil.
              Erramos o caminho e fomos parar no belo hotel Liao Liao, o mais luxuoso da cidade, que oferece até campo de golfe aos privilegiados hóspedes, sem contar a vista maravilhosa das montanhas e do lago. É isso. Bariloche é banhada pelo belíssimo lago Nahuel e cercada de montanhas e bosques. É realmente uma natureza exuberante.

           Subimos pelo teleférico no Cerro Campanário, morro de 1.050 metros. Lá no alto há uma cafeteria, onde, com surpresa, tomamos um bom café, artigo raro na Argentina. A vista é muito linda.

Paisagem linda do Campanário


No teleférico do cerro Otto
               Do Cerro Campanário fomos direto para o majestoso Cerro Catedral, onde, no inverno, estão as mais famosas pistas de esqui de Bariloche. Sobe-se de teleférico, em duas etapas e a altura é muito maior. Lá são 2.000 metros de altitude e a vista é deslumbrante. Vê-se o lago Nahuel, com suas ilhotas, as montanhas com os picos nevados e toda a vegetação maravilhosa da cidade. Passeio imperdível para quem vai a Bariloche.
              Para completar o circuito, fomos em seguida ao Cerro Otto, esse mais próximo da cidade. Pode-se subir de carro, mas preferimos o teleférico que, ao contrário dos outros, é composto de cabines fechadas para quatro pessoas. Subimos com um casal brasileiro, de Natal/RN, que estava em lua de mel. Ele é fotógrafo e tirou fotos nossas, que ficaram boas, naturalmente. Decidi fazer um curso de fotografia quando voltar. Estava cansada de apanhar da câmera. A maioria de nossas fotos ficam boas, por sorte, já que não entendemos nada da regulagem das máquinas. A digital é fácil, mas mesmo assim requer alguns conhecimentos que não temos. Naquele dia, pela manhã, quase compramos outra máquina porque não conseguíamos ver a imagem no visor e pensamos que ela tinha pifado. Só não chegamos a efetuar a compra porque a loja não aceitava cartão e quando conseguimos efetuar o saque, resolvemos passar em outra loja. Lá, por sorte, havia um atendente honesto que deu uma regulada rápida e nos devolveu a máquina em perfeitas condições. Na loja anterior, o rapaz nos tinha dito que não tinha conserto. Como sempre, contamos com a ajudinha providencial do meu anjinho da guarda. Digo sempre que ele é meu porque o Tavinho não comunga muito com as minhas crenças, mas termina se beneficiando delas.

No Cerro Catedral

               No Cerro Otto há um restaurante no mesmo estilo do Giratório, de Santiago. O piso gira enquanto se observa a beleza da paisagem. O sistema é o mesmo, só que a estrutura é um pouco menor e o giro total não deve durar mais que 20 minutos. Linda a vista. Valeu a pena.
               Voltamos ao hotel cansados e felizes. Descansamos, namoramos e saímos para jantar na Taberna Breogan, que fica pertinho do hotel, na mesma Av. San Martin, no número 405. É uma taberna galega (origem espanhola). Comi uma bela truta e Tavinho foi de lomo (filé) com batatas e arroz. Na Argentina, ele não dispensou a carne vermelha, que parece melhor que a nossa e, graças ao câmbio favorável, estava mais barata. Como conseguimos ver praticamente tudo o que havia de melhor na bela Bariloche, decidimos partir no dia seguinte. Faltavam ainda cerca de 2.000 km para chegarmos ao Fim do Mundo.

07/01/2008

                 Não sei dizer se são os dias ou as noites que são maiores naquela região. Mas, eu, particularmente, não conseguia dormir cedo. Assim, na noite do dia 06, quando apaguei a luz, era uma e meia da manhã, ou seja, fui dormir já no dia 07. Em conseqüência, nosso plano de deixar Bariloche às 08 horas sofreu um atraso. Saímos às 10 horas, o que terminou me agradando muito, já que curtimos novamente o belo visual da cidade, com o sol da manhã deixando seus reflexos nas águas do lago Nahuel.
Rio Foyel
                  Pegamos a Ruta 258, que segue margeando o lago por um bom pedaço. Logo que deixamos o Nahuel Huapi para trás, surgiu o lago Mascardi. Mais pra frente, paramos um pouco à margem do Rio Foyel. Água límpida, cheia de pedras, paisagem bonita. Tirei uma foto do Tavinho.
                   Logo em seguida, chegamos a El Bolson, primeira cidade de porte médio do caminho. Paramos em um posto e compramos algumas medias lunas e coca-cola para forrar o estômago. Também abastecemos o jipe.
                  Um pouco mais a frente, a paisagem mudou radicalmente. Chegamos à região dos pampas, imensamente árida, aparência de deserto sem areia, com vegetação seca. As montanhas já não tinham picos nevados. Após Gobernador Costa, onde paramos novamente para abastecer e comer um sanduíche, a paisagem ficou menos seca e passamos a ver gado pastando.
                  No entroncamento seguinte, erramos o caminho e fomos parar numa cidadezinha histórica, Jose de San Martin, que imaginamos ser o berço ou lugar importante na vida do herói argentino. O vento era muito forte na estrada e começamos a temer que ele deslocasse o carro. Vimos que faltavam cerca de 260 km para chegarmos a Sarmiento e de lá mais 150 km até Comodoro Rivadavia, que era nosso objetivo para pernoitar.
                 A paisagem voltou a ficar mais seca e o vento aumentou. A essa altura, faltavam 184 km para Sarmiento e o vento era assustador. Nunca tinha visto antes paisagem tão hostil. Tentei descer do carro, quando Tavinho, que estava dirigindo, parou um pouco para olhar o mapa e, simplesmente, não consegui. Fiquei com medo de não conseguir sustentar a porta do Troller e também de ser levada pelo vento e desisti de sair do carro.
                 Quando estávamos há 120 km de Sarmiento, olhei o relógio e vi que era já 18h50m. Cheguei à conclusão que só iríamos até lá. De tão feia e desértica, a paisagem nos pareceu fascinante, talvez pelo inusitado. A sensação que tínhamos era que a estrada não levava a lugar nenhum, que não havia ser vivo naquelas plagas. Sensação desmentida pelas placas indicativas que, de quando em quando, nos avisavam quanto faltava para chegarmos ao destino.
                 Antes de chegarmos a Sarmiento, apareceu à nossa frente o lago Musters. Avistamo-lo primeiro ao longe, após uma curva da estrada, entre as montanhas. Visão fascinante! Logo, chegamos perto e, mais uma vez, impressionamo-nos com o inusitado da paisagem. A vegetação desértica, constituída de pequenos arbustos secos, entremeados de pedras, chega até as margens do lago. Não há uma só árvore. E o vento, ali na beira do lago, aumentou de intensidade. Tavinho, preocupado com a intensidade do vento, diminuiu a velocidade do Troller. Estávamos na Patagônia, fascinados com aquele mundo agreste e, ao mesmo tempo, com um pouco de medo.
                Chegamos a Sarmiento pouco depois das 20 horas, ainda dia alto. Na entrada da pequena cidade, indicaram-nos um hotel. Havia lugar e instalamo-nos no apartamento que tinha apenas TV a cabo. Nada de internet, mas, por uma noite apenas, não faria falta. Na breve voltinha que demos pela cidade, continuamos impressionados com a constância do vento. É incrível o barulho que ele faz e não consegui imaginar como seria viver num lugar assim. A proprietária do hotelzinho disse-nos que é assim o ano inteiro. Nas ruas, há movimento permanente de folhas voando, poeira levantando e objetos sendo levados pelo vento. Fiquei imaginando o trabalho que deve ser manter uma casa limpa. Tavinho concluiu que não deve existir a profissão de gari naquela região porque seria realmente um trabalho inútil, já que o movimento contínuo do vento desloca tudo do lugar, sem trégua.
                  Escrevendo no quarto do hotel, verifiquei que já eram 23h20m, horário de verão na Argentina e mesmo horário no Brasil. O sol tinha ido embora não fazia muito e, pela janela, vi que o céu ainda estava com as luzes avermelhadas do poente. Terra estranha aquela! Tínhamos rodado, no dia, 755 km e para o dia seguinte planejamos ir até Rio Galegos, mais de 900 km. Àquela altura, sem muita informação sobre o caminho, não tínhamos a menor idéia se conseguiríamos atingir o objetivo.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 5

02/01/2008

No centro de Pucón
                  Na manhã seguinte, após nosso café da manhã, quando vi queijo pela vez primeira naquela viagem, acompanhado de pão, leite com nescafé, manteiga e geléia, pegamos nosso jipe, que marcava 21.166 km rodados, e fomos explorar a cidade. Primeiro, uma volta perto do lago que, de fato, é muito lindo. Depois, fomos ao centro, onde estão os restaurantes e a avenida principal. Vimos outro troller igualzinho ao nosso, mas não encontramos os ocupantes. Topamos com uma turma de brasileiros, que estavam em oito pessoas, todos com veículos 4x4, de Joinvile, Santa Catarina. Estavam no caminho inverso, já retornando, iam passar em Santiago e retornar para o Brasil. Um dos casais nos falou que passaram três dias em Porto Varas, que acharam muito linda. Demos-lhes dicas sobre Santiago.
              Cabe, aqui, falar um pouco de Pucón. Trata-se de uma cidadezinha –o guia fala em 25 mil habitantes – fascinante, talvez a mais charmosa da região dos lagos chilenos. Ela atrai turistas do mundo inteiro, por sua versatilidade, uma vez que, além do visual representado pelo formoso lago e pelo vulcão maravilhoso, ainda tem águas termais e é procurada pelos amantes dos esportes radicais, mountain bike, trekking, rafting e, no inverno, esqui e snowboard. Me fez lembrar Gramado e Canela, mas tem mais atrativos.
                Retornamos ao hotel, fechamos a conta (30.000 pesos) e resolvemos seguir em frente, rumo ao vulcão Villarrica.
No meio da subida do Villarrica
Chegamos ao gelo do vulcão
                Fantástico! No início da subida, quando paramos o jipe a primeira vez, encontramos dois casais brasileiros, que havíamos visto em Mendoza. Acabamos subindo juntos. Eles são de Brusque/SC e um deles é dono de uma fábrica de cerveja artesanal. Na subida inicial, descobrimos que estávamos na pista errada e voltamos para subir pelo caminho dos alpinistas. Caramba! A gente sobe até bem alto e alcança os blocos de gelo, nas encostas do vulcão. Quando os enxergamos à distância, nem imaginamos que é possível alcançá-los de carro. Muito lindo e emocionante!  Tiramos muitas fotos no gelo e eu peguei duas pedras do vulcão para lembrança. É incrível, a gente vê o gelo derretendo e escorrendo devagarzinho. Vimos muitos alpinistas subindo e descendo do pico, mas turistas comuns não têm como passar do ponto em que chegamos. Há lá uma estação de teleférico, mas não estava funcionando. Deve abrir somente na temporada de inverno. O tempo estava meio fechado, mas mesmo assim deu pra tirar boas fotos.
                      Descemos, abandonando os companheiros de Brusque. Eles vão para Valdívia, nós decidimos ir direto para Puerto Varas e, de lá, o nosso pensamento era  irmos a Bariloche, de barco e ônibus, deixando o jipe guardado. Os planos foram mudados, conforme contarei depois. Paramos em Villarrica para comermos uns salgados numa padaria da Av. Pedro de Valdivia e pegamos a Panamericana. Naquele dia, paramos apenas para lanches rápidos e para abastecer nos postos da Rede Pronto/Copec, dos quais ficamos fregueses. Muito bons!
                 Os dias na região dos lagos andinos são longos. Rodando pela estrada, com Tavinho na direção, observei que, apesar de ser 20 horas, o sol ainda estava alto. Resolvi prestar atenção para marcar a hora do poente. Chegamos a Puerto Varas por volta de 21 horas e ainda era dia. Terminei me esquecendo de marcar a chegada da noite, mas não tardou muito, deve ter ocorrido mais ou menos, às 22 horas.
                  Instalamo-nos no hotel Licarayen, uma charmosa construção de estilo alemão, que fica num local estratégico, numa das curvas da Avenida que margeia o lago Lianquihue. A cidade é bem agradável, com casas de madeira, inspiração da colonização alemã. É a porta de entrada para o Parque Nacional Vicente Peres Rosales, cujas atrações principais são o famoso Lago Todos Los Santos e o Osorno, o vulcão que é um dos mais tradicionais cartões postais do Chile. Nosso apartamento no hotel tinha vista parcial para o lago e a diária era 104 dólares. No Chile, é comum o preço na moeda americana, principalmente nos hotéis medianos e de luxo.
             Jantamos no restaurante Da Alessandro, que se localiza na avenida que passa defronte ao lago. Percorremos a cidade, que o guia informa ter 33.000 habitantes, informação que imaginei estar incorreta, já que pareceu-me maior. Havia muitos restaurantes abertos, tanto na margem do lago, quanto no centro da cidade, que fica numa parte mais alta, mas chegamos à conclusão que fizemos a escolha correta. Comi um belo salmão e Tavinho novamente optou por massa, o tradicional gnocci. Pagamos 24.200 pesos pelo jantar. A idéia para o dia seguinte era explorar a cidade e decidir se faríamos o passeio para Bariloche. O custo do mesmo, só a ida, é 170 dólares por pessoa.

03/01/2008

                   Após o café da manhã, que tinha pãezinhos e o kuchen, uma iguaria tradicional da região, de origem alemã, que é uma espécie de mistura de bolo com rosca, recheado com frutas, muito gostoso, saímos para dar um volta pela cidade. O nosso carro marcava 21.601 km rodados. Descobrimos que a viagem para Bariloche de barco estava lotada até nem me lembro quando. Então resolvemos ir até o Lago de Todos Los Santos e ver os saltos do Rio Petrohue.
O fantástico Rio Petrohue
Passamos primeiro nos Saltos. Paga-se 1.200 pesos por adulto para ver os saltos e vale muito a pena. O rio tem uma cor fantástica, vários tons de verde e tem várias cascatas. Muito bonito! Tiramos belas fotos.
Fomos em seguida para o parque, onde está o lago. Lá decidimos pegar um barco de excursão para Peulla. São quase duas horas de navegação. O visual, na viagem, é maravilhoso. Vê-se o Osorno, com toda a sua imponência, bem de perto, e também outros vulcões como o Calbuco e o Puntiagudo, todos com picos nevados. Passamos por uma ilha particular chamada Margarita, que é de propriedade dos donos da agência de turismo local, que tem monopólio sobre o turismo na região.
Em Peulla, não há nada a fazer, a não ser contemplar os vulcões. Trata-se de um lugarejo minúsculo, onde, para surpresa nossa, tem um grande hotel e havia muitos hóspedes lá. Tavinho encontrou uns brasileiros que estavam numa excursão da agência CVC, em dois ônibus. Iam dormir lá para seguir no dia seguinte para Bariloche, na viagem de barco que tínhamos planejado fazer, mas que não havia lugar. As agências compram os pacotes e não sobram vagas para os particulares.
A permanência do barco na cidade é de pouco mais de uma hora e meia. Pode-se usar o tempo fazendo o que eles chamam de safári fotográfico – entrar num barco especial, que chega bem pertinho dos vulcões e dos locais mais bonitos para fotografar. Dispensamos. Preferimos usar o tempo caminhando até o centro da cidadezinha, onde descobrimos o hotel, tomamos um café e pudemos usar os banheiros.
O rio Petrohue, com o Osorno ao fundo
                Antes, no porto onde tomamos o barco, também havia um hotel. Aproveitamos para almoçar no restaurante do mesmo, já que tínhamos de esperar até as 15 horas para a partida do barco. Passava das 13 horas quando, para variar, comemos salmão acompanhado de suco de laranja. O almoço custou 23.000 pesos.
                A ida a Peulla valeu pela paisagem que apreciamos do barco. A cidadezinha, conforme mencionei antes, além de não ter nenhum atrativo, tirando a visão do lago e dos vulcões, ainda tem uns habitantes bem desagradáveis: moscas grandes, que mais parecem abelhas e que ficam revoando em volta das pessoas. Não dão sossego. Quanto mais você as expulsa, mais elas se agitam. O nome da mosca, segundo nos informaram é tábano. Uma cearense que estava no passeio disse que vai batizar com esse nome todas as pessoas chatas que cruzarem o seu caminho.
No barco, a caminho de Peulla
           Conhecemos uma espanhola chamada Maria, que estava só e viajava com uma malinha e duas sacolas. Ela nos pediu carona para voltar a Puerto Varas e, no caminho, conversamos muito. Lembrei-me da minha amiga Tê, que consegue viajar sempre com pouca coisa, mas a tal Maria é mais mochileira. Pelo que contou, já percorreu meio mundo, sempre gastando o menos possível. Ficou horrorizada com o preço do nosso hotel e disse que ia procurar um alternativa mais barata. Nós a deixamos na cidade, na porta de um pequeno hotel. Ela tinha chegado pela manhã a Puerto Varas e ido direto ao passeio, naturalmente para economizar uma diária. Se despediu agradecendo efusivamente pela carona. Voltamos ao nosso hotel e fomos dormir sem resolver nosso destino do dia seguinte.

04/01/2008

                   Estranhamente, acordamos mais tarde do que o costume, na manhã de quatro de janeiro.
                   Pegamos o jipe, que estava com 21.733 km e decidimos ir até Puerto Montt. Fica bem perto de Puerto Varas, só 16 km e é uma cidade maior, embora não tenha o charme da bela vizinha. Resolvemos dar umas voltas pela cidade, indecisos se pegávamos uma balsa para conhecer a ISLA DE CHILOE ou se tomávamos o rumo da Carretera Austral, que fazia parte dos sonhos do Tavinho. Trata-se de um caminho radical, estrada de rípio, que, segundo consta nos manuais de viagem, tem um visual maravilhoso, belíssimas paisagens. Eu disse a meu companheiro que topava a aventura, porque sabia que ele queria muito enfrentar esse caminho cheio de surpresas, mas, no fundo, estava com um pouco de medo. A maioria dos aventureiros que pegam a famosa Carretera o fazem em grupo, mas nós estávamos sós e não tínhamos experiência suficiente para esse tipo de aventura. Tavinho é bom motorista e eu também não faço feio, mas não entendemos nada de mecânica. Se a máquina pifasse, o que faríamos? Será que conseguiríamos ajuda? E os outros perigos?
               Por fim, prevaleceu o bom senso. Decidimos esquecer a Carretera Austral e descer pela Argentina. Com a ajuda dos nossos mapas e consultando também as anotações que retiramos de um livro escrito por um fotógrafo de Florianópolis, que fez, com a família, viagem semelhante à nossa, narrando a aventura em “Aventura no Fim do Mundo”, Tavinho montou nosso roteiro para os próximos dias. Esse livro nos foi emprestado por um casal de Goiânia, José de Deus e Elisa, que saíram da cidade depois de nós, no dia 26 dezembro para também ir à Patagônia. Pretendíamos nos encontrar pelo caminho. Só que, infelizmente, eles só foram até Mendoza. Estavam em quatro no Troller, o casal e as duas filhas, mas a viagem ficou desconfortável. Para uma viagem longa, não é o carro ideal para transportar quatro pessoas. Daí, passaram o Ano Novo em Mendoza e voltaram para Goiânia. Pena!
Curtindo o Pacífico
                Decidido o roteiro, resolvemos curtir a cidade. Na parte da manhã, logo que chegamos a Puerto Montt, tínhamos ido ao Serviço de Orientação ao Turista, onde um jovem nos forneceu mapas e informações da cidade. Queríamos botar o pé na água do Pacífico, que víamos pela vez primeira, mas no centro da cidade não tem praia, porque as margens do Golfo, que banha a cidade, são cobertas de pedras. Mas, descobrimos que havia uma praia logo à frente, seguindo a Av. Costanera e rumamos para lá. Tirei os sapatos e mergulhei os pés finalmente nas águas do Pacífico, fazendo a minha saudação costumeira à Yemanjá e aos meus protetores. Salve! Valeu pelo ritual porque a prainha não tinha qualquer atrativo, até me esqueci de anotar o nome do lugar.
                  Voltamos ao centro nevrálgico de Puerto Montt em busca do Mercado, onde o rapaz do serviço turístico disse que poderíamos almoçar pescados. De fato, o Mercado é uma preciosidade, para usar a expressão mais comum da espanhola Maria, nossa caroneira do dia anterior. Além das barracas normais de todos os mercados, há um sem número de pequenos restaurantes, alinhados uns ao lado dos outros, em dois andares do prédio, bem característico, todo de madeira. Os garçons ou proprietários ficam convidando os passantes a entrarem, fazendo propaganda da comida. Puerto Montt é a capital do salmão, segundo lemos nos folhetos turísticos. Foi difícil escolher o restaurante, dada a diversidade de opções. Entramos no da Rosita e, claro, pedimos salmão. A última vez que tinha comido carne vermelha foi no Restaurante Patagônia, em Santiago. No dia 31 de dezembro, o prato foi a Centolla, o caranguejo da região e, a partir de primeiro de Janeiro, só comi salmão. Delícia! E o melhor da história é que, conforme nos havia dito o garçom em Santiago, quanto mais a gente desce, menos ele custa. Lá na Rosita pagamos 10.600 pesos pelo almoço, aí incluída uma porção extra de arroz que pedimos, mais refrigerantes e água. Claro que se trata de um restaurante popular, mas a comida é de primeiríssima qualidade e feita na nossa frente. Dez mil e seiscentos pesos representam menos de cinqüenta reais.
              Instalamo-nos no hotel Miramar, bem simplezinho. Não tinha estacionamento e tivemos que colocar o Troller no posto Esso, que fica em frente. A grande vantagem do hotelzinho é a localização, defronte à costa, pelo que tínhamos uma vista bem agradável da janela. A diária foi de 25.000 pesos, valor que pagamos adiantado para sair bem cedo rumo à Bariloche.
              Tínhamos mandado lavar nossas roupas sujas, por precaução, porque pensávamos que iríamos pela Carretera. Numa lavanderia situada na galeria Espanha pagamos 8.000 pesos por oito quilos de roupa. Foi ótimo! Ainda tínhamos bastante roupa sem usar, mas com essa providência nos despreocupamos, embora, pelos nossos cálculos iniciais ainda tínhamos quase um mês de viagem pela frente.

domingo, 12 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 4


30/12/2007
                  Acordamos felizes e descansados em Santiago. Nada como iniciar o dia namorando para obter mais energia para despender. Estávamos na capital do Chile e queríamos desfrutar do melhor que ela poderia nos oferecer.
Visão de Santiago do Cerro Sta.Lucia

             O café da manhã tinha um suco de fruta (me pareceu tamarindo, mas é uma fruta parecida), pãozinho careca, bolo e café com leite. Estava sentindo muita falta do meu queijinho minas, que eu não comia desde que saí do Brasil. Mas, como bons viajantes, temos como regra nos adaptarmos aos costumes locais, nada de ficar procurando coisas de nossa terra. Fomos visitar o Cerro (parque) Santa Lucia, bem em frente ao nosso hotel. Tem uma bela escalada e no alto há um mirante, que descortina uma bela vista de Santiago e também da portentosa montanha. Novamente (talvez seja sempre) havia neve no cume. No mirante, tem um tipo de telescópio, onde se coloca uma moeda grande para apreciar a vista dos Andes, mas não tínhamos a moeda certa. Como estávamos bem próximos do parque, pensamos que voltaríamos com a tal moeda, mas esse projeto terminou ficando para uma oportunidade futura. Antes de subirmos, quando preenchíamos o livro de visitantes, ocorreu de encontrarmos duas brasileiras, mãe e filha, que moram em São Paulo. As duas, muito simpáticas, estavam lamentando estarem no fim da viagem e deu-nos algumas dicas sobre Santiago, recomendando-nos, principalmente, não deixarmos de conhecer o restaurante Giratorio, na Calle 11 de setembro, pegando o metrô para Los Leones.
                 No alto do Cerro Santa Lucia havia muitos turistas. Conversamos com um casal jovem, ela mineira de Muriaé, ele, carioca, mas ambos com residência em São Paulo. Ficaram entusiasmados com o nosso passeio, trocamos e-mail e prometemos mandar-lhes o resumo da nossa viagem, uma vez que pretendem realizar coisa parecida no futuro. A promessa ainda não foi cumprida, mas agora que decidi digitar minhas anotações vou me lembrar de comunicar com eles.

Tavinho na Concha Y Toro
                      Voltamos ao hotel e resolvemos ir no jipe visitar a Vinícola Concha Y Toro. A excursão ficaria por 50.000 pesos para nós dois, mas vimos que não era tão longe e. portanto, já que estávamos de carro, não justificava pagar esse preço. A única dificuldade foi sair da cidade (que falta faz o GPS), mas logo, perguntando aqui e ali, pegamos a Av. Vicuña Mackenna, que é praticamente uma reta até a vinícola. Foi incrivelmente fácil e economizamos bastante porque pagamos apenas 6.000 pesos cada um pela visita guiada com a degustação e ainda ganhamos a taça usada de “regalo”. Para variar, tinha um monte de brasileiros na vinícola e virou um troca-troca de experiências. Todos ficaram empolgados com a nossa aventura, nenhum deles estava de carro, faziam parte de grupos ou, simplesmente, tinham pegado um vôo para conhecer a capital do Chile. Nessas conversas descobrimos que, para quem não está de carro e não quer pagar o preço da excursão oferecida nos hotéis, é só pegar o ônibus número 81 ou 73, que vem direto. Alguns brasileiros pegaram o metrô até a Plaza de Puente Alto e depois um taxi até a vinícola. Mas, segundo Tavinho apurou com os funcionários da vinícola, o ônibus é a melhor alternativa para quem quer economizar. Fica a dica para os interessados. Para se ter uma idéia de como o preço cobrado pelas agências: 25.000 pesos por cabeça, é extorsivo, basta compará-lo com o preço do nosso hotel. A diária do Monte Carlo, que possui localização privilegiada, quarto amplo com banheiro, ar condicionado, TV a cabo, telefone, duas mesas com cadeiras, sofá, cofre, internet na recepção e bom atendimento, nos custou 30.000 pesos.
                Ficamos fascinados com a Vinícola Concha Y Toro, orgulho dos chilenos. Ela está localizada em Prique, um município limítrofe de Santiago e está instalada numa grande área arborizada, onde se destaca uma bela mansão que foi outrora a residência dos proprietários. A visita é acompanhada por uma guia que leva a turma de visitantes para percorrer os vinhedos, assiste-se um filmeto sobre a história da vinícola e a produção dos vinhos. Ao final, há um bar onde se pode comer alguma coisa e tomar mais vinho. Foi o que fizemos e também compramos uma caixa de Casilero Del Diablo, cabernet savignon tinto. Não somos entendidos, mas, de um modo geral, os vinhos chilenos são muito bons. A Concha Y Toro foi escolhida, em 2005, como a melhor do mundo, conforme consta nas informações disponíveis para os turistas
Na volta da vinícola, ligamos o rádio e escutamos Roberto Carlos cantando Proposta, em espanhol. Pode?
Nosso almoço foi em um restaurante bem na esquina do quarteirão do hotel chamado Patagônia e, por coincidência, fomos atendidos por uma garçonete brasileira, Andressa, muito bonita. Contou-nos que a mãe é chilena e o pai brasileiro. Moravam no Brasil, mas os pais se separaram e ela veio com a mãe, há dez anos, morar em Santiago. Disse-nos que adora passar férias no Brasil. Comemos uma “parrilada patagônica”, que consiste em churrasco misto, com carne de vaca, porco, javali e lingüiça. A cerveja, artesanal, estava quente, como todas as anteriores que bebemos após a saída do Brasil. Que coisa mais chata!
               Após o descanso pós almoço, Tavinho desceu pra navegar na internet. Tinha mensagem dos nossos amigos retardatários, José e Elisa, que estavam em Mendoza, desde o dia anterior e haviam decidido passar lá o Ano Novo. Quanto a nós, àquela hora ainda não tínhamos resolvido se ficávamos na capital do Chile para a virada ou se arriscaríamos a descida para o litoral. No saguão do hotel, Tavinho encontrou uma família brasileira, de Oswaldo Cruz, interior de São Paulo. Tiveram azar. Foram roubados no mercado e ficaram sem uma bolsa onde estava, entre outros pertences, a chave do cofre do hotel. Mais tarde, encontrei-os novamente e fiquei sabendo que ficaram, também, sem os documentos do carro. Fiquei com pena porque era domingo e 30 de dezembro, o que diminuía sensivelmente as chances deles conseguirem solucionar o problema. Naquela noite, caprichei na minha oração, agradecendo a Deus o fato de não termos tido nenhum problema na viagem. O Troller dos nossos amigos que estavam em Mendoza já tinha trincado os faróis e pifado uma vez, mas eles conseguiram resolver o problema.
No Giratorio, em Santiago
              À noite, já por volta das 22 horas, pegamos o metrô e fomos, conforme sugerido pela turista paulista, ao restaurante Giratório. Descendo na estação Los Leones, basta atravessar a rua. Facílimo! O restaurante é atração imperdível em Santiago. Compensa a longa espera por lugar . Conseguimos entrar depois das 23 horas, mas valeu muito a pena. Enquanto você janta, o piso vai girando lentamente possibilitando uma visão panorâmica belíssima da cidade. Tomamos duas garrafas de um bom vinho branco, Tavinho comeu trutas e eu, salmão. Estava excelente a comida e pagamos por tudo 36.300 pesos, preço que consideramos razoável, considerando a qualidade da refeição e o cenário. No saguão de espera, ainda encontramos os dois casais brasileiros que havíamos visto na vinícola. Mais conversa, troca de experiências, fotografias e promessas de encaminhar os arquivos.


31/12/2007

Com a centolla no Mercado
                    Decidimos ficar em Santiago para o Ano Novo. Pela manhã, ficamos no hotel envolvidos com as tarefas de transferência das fotos para o notebook e envio de emails para os familiares. Após o meio dia, fomos ao Mercado Central, onde, acolhendo a sugestão do guia “O Viajante”, escolhemos o restaurante Donde Augusto e pedimos uma Centolla grande. Trata-se de um super caranguejo e é incrível a maneira do garçom destrinchá-lo. Ele coloca uma luva cirúrgica e com uma tesourona abre o bicho inteiro, deixando as carnes expostas pra gente comer. Antes, ele nos forneceu babadores, já que o ritual de devorar o caranguejo é mergulhando as patas e demais pedaços em um molho com azeite, alho e mais alguma coisa. O grande babador protege a roupa dos inevitáveis respingos. Tiramos fotos para registrar a primeira vez que comemos a centolla no Chile. Naquela região, a cozinha é basicamente de frutos do mar, fato que apreciei muitíssimo. Pagamos 58.960 pesos, o que, na época, equivalia, se não estou enganada a um pouco mais de 200 reais. Comidinha cara, mas que valeu a pena. O garçom nos disse que aquele prato, na região mais ao sul para onde seguiríamos, custaria um terço daquele valor.
                  Após o almoço, demos uma volta pelo Mercado, que é uma construção bonita e pitoresca, onde não falta o burburinho dos feirantes oferecendo peixes e mariscos frescos e os garçons convidando os passantes para almoçar nos diversos restaurantes que integram o complexo popular do Mercado Central de Santiago. Sem dúvida, trata-se de visita obrigatória para quem vem conhecer a bela cidade de Santiago. No retorno a pé para o hotel, paramos numa cafeteria, para um espresso e numa loja com internet e cabines telefônicas. Aproveitamos para ligar e dar notícias para o pessoal.
              À noite, após um salutar descanso, vestimos branco para saudar o Ano Novo na tradicional Alameda, ou seja, a Av. O’Higgins, onde acontece a queima de fogos. Antes, no próprio hotel, decidimos comer alguma coisa, já que não sabíamos se encontraríamos algum restaurante disponível na avenida. Optamos pelo chacareiro, o sanduíche mais popular do Chile, que consiste, basicamente, em pão, carne, tomate e vagem, com os condimentos que eles tanto apreciam. Felizmente, não havia excesso de pimenta.
                A tal avenida é bem próxima ao nosso hotel e, descendo por ela, pudemos reparar nos detalhes que diferenciam a comemoração deles com a nossa. Primeiro, lá não há o costume de se usar o branco. As pessoas colocam chapéus adornados com fitas de papel brilhoso fosforescente, aquela que usamos no carnaval. Ou usam chapéus ou perucas de papel, bem coloridas. Além disso, quase todo mundo compra confete e frascos de uma espuma, para jogar nos outros. Assim, pelo caminho, havia um sem número de ambulantes oferecendo esses artigos. Observei todo o tipo de pessoas, gente bem vestida, gente mal vestida, com roupas normais, muitas crianças, idosos, muitos deficientes, enfim, uma miscelânea. Na hora dos fogos, muitos aplaudiam e verificamos, com surpresa, que muitos faziam questão de cumprimentar os policiais que acompanhavam a comemoração, naturalmente com o objetivo de garantir a ordem. O espetáculo dos fogos foi bonito, mas nem de longe chega perto daqueles que ocorrem no 31 de dezembro nas capitais brasileiras. Cabe registrar, entretanto, que nos pareceu que a comemoração deles é mais espontânea, com uma certa dose de inocência. Não ficamos muito tempo, depois da meia noite, mas quase posso jurar que não houve excessos, nem violência. Me fez lembrar do passado, quando eu era criança, na minha então jovem cidade de Goiânia: no dia 31 de dezembro, os carros buzinavam nas ruas e o povo ia à noite para a praça Cívica, para aguardar os fogos da meia noite. Eu nunca fui, quando criança, porque meus pais não compartilhavam desse hábito, mas morria de inveja das minhas amigas que, nessa noite mágica, tinham permissão para ir dormir mais tarde.
             No nosso ano novo, em Santiago, compramos na rua um espumante, de qualidade mais que duvidosa, mas deu pra gente brindar e sonhar com um 2008 de muita paz, saúde, amor e prosperidade para todos.

01/01/2008

                  Resolvemos ir embora no dia primeiro de janeiro de Santiago. Eu ainda queria visitar o palácio La Moneda e o Museu, além do Cerro São Cristobal, mas descobrimos que, devido ao feriado, estava tudo fechado. Assim, fechamos as malas e partimos, por volta das 09h30m do hotel. O velocímetro indicava 20.344 km rodados.
                   Pegamos a Ruta Panamericana (Ruta 5), pensando em ir até Pucón, na região dos lagos andinos, distante cerca de 800 km da capital, mas com estrada boa, segundo as informações de nosso guia e mapas, fato que confirmamos. Há excelentes postos pelo caminho, da rede Pronto/Copec. Passamos ao largo de várias cidades, sem parar, uma vez que as informações que tínhamos sobre elas, não justificava a interrupção da viagem: Rancagua, San Fernando, Talca, Chillán, Los Angeles, Temuco. Completamos 5.000 km rodados na rodovia Panamericana, ao passarmos sobre a ponte no pequeno rio Pio-Pio, a 150 km da cidade de Temuco. Pelo nosso cálculo inicial, pretendíamos rodar cerca de 15.000 km pelos rincões da parte sul de nossa América. Estávamos, portanto, atingindo um terço da viagem.
Nosso refúgio em Pucón
                 Logo depois, na altura da cidade de Freire, deixamos a Ruta 5 e pegamos a estrada para Villarrica e Pucón, que ficam bem próximas uma da outra. Paramos primeiro em Villarrica. Havíamos ligado do posto em Temuco e verificado que havia vaga em um hotelzinho, que pertence a uma brasileira. Passamos na porta, mas não deu vontade de ficar. Seguimos para Pucón e procuramos pelo Refúgio Península, uma das indicações do nosso guia de viagem. Encontramos um quarto com banheiro, bem rústico. Trata-se de uma hospedagem, tipo cabana de madeira, cujo charme é a localização, bem no meio de um bosque natural. O lago Villarrica fica defronte, embora o mato não permita avistá-lo do hotel.
Pucón e o Villa Rica
                    Após um banho revigorante, saímos a pé, para curtir a linda cidadezinha, que tem um visual fantástico. O famoso vulcão Villarrica, que está a 14 km, é visto da cidade e a visão é indescritível. O lago, do mesmo nome, também é belíssimo. Jantamos em um restaurante, escolhido aleatoriamente, numa rua cheia deles, um atrás do outro. Tavinho pediu lasanha e eu, salmão. Aliás, não comi carne vermelha no Chile. Em todos os lugares, aproveitei para me deliciar com frutos do mar, especialmente, salmão e trutas que, no Chile, custam barato e são saborosíssimas. A lasanha veio servida numa cumbuca e trouxeram uma colher para o Tavinho. Foi a primeira vez que vi servirem dessa forma a iguaria italiana, mas estava ótima, segundo o meu companheiro. O meu salmão veio com batatas assadas, como se fosse um bolo recheado em camadas, as batatas alternando com o salmão. Pagamos 17.000 pesos, que equivalia a cerca de 85 reais, imaginando quanto custaria uma refeição daquele nível em uma cidade turística brasileira. O ponto negativo foi que, mais uma vez, não conseguimos encontrar bebidas geladas. Tomamos cerveja quente e refrigerante idem. A situação pitoresca, que nos provocou risos, foi o tamanho da porção de pão que o garçom trouxe para acompanhar a massa: três minúsculos pedacinhos. Pedimos mais pão e veio uma outra porção igualzinha. Os pedaços eram menores que uma torradinha comum. Fiquei pensando se havia crise de farinha por lá e pensei em pesquisar a respeito, mas depois me esqueci. Mas, a comida estava excelente e isso é o que importava.
                       Saímos do restaurante, passamos em um banco para sacar um pouco de pesos, uma vez que o hotel não aceitava cartões. Tomamos um chocolate quente numa cafeteria. Estava um pouco frio em Pucón.

sábado, 11 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 3

28/12/2007
        Após o café da manhã, por sinal bem melhor que os anteriores – salada de frutas, suco, iogurte, sanduíche, geléia e as sempre presentes medias lunas – fomos em busca do adaptador para carregar o notebook, as pilhas da máquina e para eu poder usar o aparelho que utilizava à noite. Conversamos com uns brasileiros, um casal carioca, que nos deu algumas dicas. Encontramos o adaptador e foi possível usar a internet. Enviamos e-mail para meus filhos e também para José de Deus e Elisa, casal que saiu de Goiânia depois do Natal e que pretendíamos encontrar mais à frente.
Almoçamos em um dos restaurantes do Paseo Sarmiento, uma rua fechada para autos, onde tem uma série de barzinhos e restaurantes, um ao lado do outro. Comemos pouco e não bebemos, porque havíamos marcado um tour por algumas bodegas e o ônibus viria buscar-nos às 14:30h.
clélia na vínicola em Mendoza
Às 15h30m chegou o microônibus, que levou-nos a duas bodegas, onde compramos alguns vinhos. Já tinha feito tours semelhantes no Brasil, na região de Caxias do Sul e pareceu-me que a degustação nas vinícolas brasileiras é muito mais interessante. Em Mendoza, eles limitam-se a servir pequenas porções de poucos vinhos (foram três na primeira e apenas dois na segunda), isso depois de rápida visitação nos locais de fabricação, com aquelas explicações básicas. Valeu mais pelo encontro que tivemos com casais de brasileiros, com os quais trocamos experiências.
No passeio que fizemos com o guia pela cidade, observamos que há canais que correm junto ao meio fio das calçadas. Ficamos sabendo que por esse canais corre água que irriga a cidade, que vem do Rio Mendoza, cuja origem vem do degelo da Cordilheira dos Andes. O sistema é controlado por comportas, que são abertas nos dias quentes e no verão. A região é muito seca, por isso inventaram esse sistema para abastecer e melhorar a umidade.
             A intenção nossa ao chegar ao hotel era tomar um bom banho e irmos a um restaurante especial para saborear uma legítima comida argentina acompanhada de um vinho especial. Mas, deu preguiça e terminamos saindo do jeito que estávamos e fomos parar no mesmo Paseo Sarmiento de antes. Sentamos no restaurante vizinho ao anterior e pedimos uma cerveja bem gelada. O cara trouxe uma jarra de chope, que de gelado não tinha nada, estava quase natural. Em garrafa só havia cerveja preta. Isso acabou com o humor do Tavinho. Com o meu, não, eu me sentia particularmente feliz aquele dia, provavelmente porque tinha conseguido falar com minhas filhas no MSN, que me disseram estar bem e deram também notícias do Gustavo, com quem não consegui falar. Isso, para uma mãe, é tudo de bom. Assim, achei ótimo o prato de papas (batatas) com salsichas, que tomamos com coca-cola. Na Argentina não tem guaraná e os outros refrigerantes, que experimentamos, são horríveis.
Antes do restaurante, eu percorri a feirinha da praça, mas não encontrei nada diferente. Encantei-me apenas com um vaso trabalhado com motivos da cultura inca. O danado custava 60 pesos que, na hora, achei um pouco caro. Não comprei e, como sempre, depois me arrependi.

29/12/2007

                19.888 km rodados no troller. Completamos exatamente 4.000 km de viagem, aqui em Mendoza. Temos muito chão pela frente.
A primeira visão dos picos nevados
Saímos do hotel pouco depois das oito horas e pegamos a Ruta 40. Logo no início da estrada, deparamos com a montanha nevada a nossa direita. Foi emocionante a primeira visão dos picos nevados e paramos para fotografar. Quando estávamos parados, fomos alcançados por um ciclista que nos abordou. Era um garoto paulista, que também ia para Santiago. Disse que estava fazendo a viagem de ônibus, mas resolveu fazer de bike o percurso de Mendoza a Santiago. Simpático o garoto.

Pegamos a Ruta 7 e seguimos nos extasiando com a visão dos Andes. Entramos no vilarejo de Potrerillos, onde tem várias casas de veraneio e há uma estação de esqui próxima, Vallecitos, mas não fomos até lá.
Retornamos à ruta 7 e fomos até Uspallata, um pequeno povoado, a 1.900 metros de altitude, famoso por ter sido palco das filmagens de “Sete anos no Tibet”. O povoado possui um quiosque de informações turísticas, onde ficamos sabendo as atrações que tínhamos pela frente: Penitentes, a 65 km, Puente Del inca, a 70 km e, logo depois, o parque do Aconcágua. Por último, Villa Las Cuevas, pouco antes da fronteira do Chile.
Puente del Inca-ruínas do hotel
          Seguimos e paramos em Puente Del Inca, que tem uma paisagem belíssima. O povoado está a 2.720 m de altitude, no meio das montanhas. O local foi ocupado por uma corporação do exército devido à sua localização estratégica, a poucos quilômetros do Chile, mas é muito pequeno, tem o pessoal do exército de um lado e do outro um aglomerado de casas. Não há ruas. Antigamente, havia aqui um hotel de luxo, mas hoje só tem as ruínas dele. Venta uma barbaridade no local. Estávamos em pleno verão, mas tivemos que colocar nossos agasalhos. Há inúmeras banquinhas de venda de artesanato, a maioria de influência inca. Aliás, o nome da localidade, deriva de uma formação natural, em forma de arco, que passa sobre o rio Mendoza e que seria utilizada pelos Incas.
Não comprei nada do artesanato em Puente Del inca. Fiquei apaixonada por um tapetinho com motivos incas, mas estava com poucos pesos e fiquei com receio de precisar de dinheiro argentino antes da fronteira. Foi tolice, da qual me arrependi outra vez.
Ah, o Aconcágua!!!!!!! Que visão fantástica!
Entramos no Parque Provincial Aconcágua e deixamos o carro no local indicado. Resolvemos subir até onde nossas limitações permitissem. A trilha inicial da subida é bem tranqüila. Fomos, sem dificuldade, até a altitude de 2.900 metros. O que incomoda é o vento forte e gelado. É impossível ficar com os braços nus. Devido ao vento frio, o sol não incomoda, mas queima impiedosamente a pele dos desavisados. Não foi o nosso caso
porque já tínhamos lido vários relatos de viajantes que se aventuraram pela rota dos Andes e estávamos preparados. Acima da altitude que alcançamos, é escalada para profissional. Tinha dezenas deles, de todos os lugares, devidamente equipados para a subida. Muitas turmas de motoqueiros, inclusive brasileiros. Aliás, ali na rota dos Andes, os motoqueiros são as presenças mais constantes, volta e meia passavam vários deles por nós. No curso de nossa viagem, uma coisa me encabulou: a maioria dos viajantes estava sempre em grupo, várias motos ou vários 4x4. Muitos que conversamos se admiraram de estarmos os dois sozinhos. Não sentimos medo e, talvez por isso, os deuses nos ajudaram. Não tivemos contratempo nenhum com o Troller, nem sequer um pneu furado. E nenhum problema de saúde, graças a Deus. Pra não dizer que não houve nenhum momento difícil, tenho que confessar que ficamos, sim, apreensivos numa parte do deserto da Patagônia, mas o momento de contar isso ainda não chegou. Por enquanto, não dá pra descrever a emoção de uma goiana e um paulista ao contemplarem por horas a fio, a majestade da Cordilheira dos Andes. Essa emoção, como diz a propaganda do cartão de crédito, não tem preço.

Ainda inebriados com o visual da montanha, paramos logo a frente em Villa Las Cuevas, lugarejo onde tem um monte com um Cristo Redentor. Las Cuevas está a 3.200 metros de altitude e para chegar ao Cristo tinha mais 1.000 metros, ou seja, 1 km de subida a pé. Não nos interessamos em subir. Cristo Redentor já conhecemos o da nossa Cidade Maravilhosa que, temos certeza, não existe mais belo.
Almoçamos no restaurante do local. Comida caseira: arroz, carne, purê de batatas, lentilhas, tomate e beterraba. Gostoso e barato. Pagamos 48 pesos, incluindo três cocas. Estávamos prestes a sair, pela vez primeira, da Argentina e me dei conta de que ainda não comprara nem um souvenir. Pela nossa idéia original, que aquelas alturas não sabíamos se íamos manter, ainda entraríamos outras vezes no país dos hermanos, mas, por via das dúvidas, comprei ali um pratinho de parede e um boné de Mendoza.
A fila na aduana
Chegamos, finalmente, à fronteira com o Chile, onde uma surpresa nos esperava: Operação Padrão na aduana. Pelo menos, foi essa a conclusão a que chegamos ao ver uma fila que se estendia por quilômetros de comprimento. Chegamos às 14:10 h e só fomos liberados exatamente às 20 horas, ou seja, pouco faltou para seis horas de espera. Quando chegou a nossa vez, foi incrivelmente rápido. Havíamos preenchido os papéis do veículo e os pessoais e, para não ter problemas novamente, declaramos o notebook, a câmera fotográfica e até o radinho de pilha. Mas, os agentes não olharam, nem revistaram nada. Deviam estar cansados, mas percebemos que a rivalidade deles é com os argentinos. O carro dos hermanos, à nossa frente, foi revistado. Estávamos um pouco preocupados porque ficamos com pena de jogar fora o queijo e o salame maravilhoso que havíamos comprado na serra. Não é permitido entrar com alimentos, mas nem perguntas fizeram para nós. Melhor assim. Não dá para ser sempre politicamente correto. No caso, jogar fora aqueles alimentos seria pecado, ou não? Enfim, somos humanos e brasileiros e o que
pensamos foi somente que, depois de toda aquela espera, seria muito desagradável ter problemas na fronteira.
                  Quando finalmente pegamos a estrada, nova surpresa nos esperava. A rodovia (se é que pode ser assim chamada), ali no início do território chileno, é muito louca. Curvas super fechadas, com um despenhadeiro embaixo e sem qualquer proteção. São vários quilômetros nessa situação, até quase o fim da descida. Quando chegamos ao fim desse trecho surreal, paramos no primeiro restaurante que apareceu, bem na beira da estrada. Comemos dois sanduíches que estavam bons, mas com um certo exagero de pimenta. Pagamos 5.900 pesos pelo lanche, incluídos os refrigerantes.
                 Em Santiago, devido ao nosso cansaço, decidimos contratar um táxi para nos levar até o hotel que havíamos escolhido. Ainda não tínhamos GPS, falha nossa. Não havia vaga no local e fomos para um outro, bem perto, o Monte Carlo, que nos agradou. Não tinha frigobar e a internet no apartamento não funcionava, somente no hall, mas naquele momento a única coisa que queríamos era uma boa cama para descanso. Tavinho, como de hábito, apagou de imediato e eu também não agüentei escrever muito. Já era mais de meia noite.







sexta-feira, 10 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo 2

Tavinho na ruínas de San Ignacio
                                                                                                                                                       ainda 25/12/2007
Poucos km a frente, a primeira polícia rodoviária (gendarmeria). O policial nos pediu a carteira internacional e o seguro Carta Verde. Tudo ok. Seguimos pela Ruta (rodovia) 12. Em Colonia Victoria, o primeiro pedágio, baratinho, 1,70 pesos.
San Ignácio Mini é a mais importante das quinze missiones argentinas, que são Patrimônio da Humanidade. A aldeia fica à margem da Ruta 12, antes da cidade de Posadas, a capital das Missiones. Paramos lá. Por causa do feriado de Natal, o museu estava fechado, mas tivemos acesso às ruínas, que são interessantes, do ponto de vista turístico. Tiramos algumas fotos e aprendemos um pouco sobre a história das Missões Jesuíticas, que foram erguidas pelos padres da Companhia de Jesus, no início do século XVII. Consta que apesar das guerras e das epidemias, as Missões foram prósperas na região, chegando a ter mais de 140 mil habitantes. Devido às invasões portuguesas e paraguaias, muita coisa se perdeu até que no século passado foram feitos trabalhos de preservação para resgatar a
memória e as tradições do povo guarani. A Unesco, em 1993, as reconheceu como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Paramos em Posadas e procuramos um restaurante, mas estava tudo fechado, em razão do feriado. No nosso guia de viagem, a informação é que a cidade possui cerca de 250 mil habitantes, mas quase não vimos ninguém. Conseguimos comprar, numa padaria, sanduíches prontos que tomamos com refrigerante. Foi o nosso almoço de Natal. Prosseguimos a viagem e rodamos mais 310 km até Corrientes, onde procuramos o Hostal Del Rio, o qual aparecia no guia como o de melhor custo-benefício da cidade. De fato, o nosso apartamento era bem razoável, mas, no dia seguinte ficamos decepcionados com a pobreza do café da manhã (café, leite, torrada e geléia). Mas, ao chegar, após um banho, fomos em busca de uma refeição salutar. Na avenida Costanera, que tem um belo visual do Rio Paraná, conseguimos, não sem alguma dificuldade, o nosso objetivo.
por do sol em Corrientes
Corrientes, com 330.000 habitantes, pertence à região do Chaco e é capital da província do mesmo nome. È uma das cidades mais antigas da Argentina, de 1588, mas, tirando a bela avenida beira-rio, não tem maiores atrativos 
                                                                                                                                           26/12/2007
Saímos de Corrientes um pouco depois das sete horas. Tínhamos pensado em sair bem cedinho, mas decidimos esperar pelo desayuno, que terminou sendo aquela decepção já narrada. A decisão de tomar o café da manhã no hotel não é somente pela economia, já que o valor está embutido na diária, mas também porque evita uma parada mais na frente. Mas, em alguns casos, realmente não vale a pena. O ideal é se informar no dia anterior sobre o horário e o menu, porque, pra tomar um café com torrada, não compensa pena perder tempo, mesmo porque, por medida de segurança e para abastecimento e checagem das condições do veículo, temos que parar de vez em quando.
Atravessamos a ponte que liga Corrientes a Resistência, a cidade que é conhecida como a “das estátuas”, porque há estátuas espalhadas por toda a cidade, mas optamos por prosseguir em frente e não fomos ver. Demos apenas uma paradinha para uma foto da ponte, que não ficou muito boa, acho que em razão de ter sido tirada contra o sol.
Pegamos a Ruta (rodovia) 11, em direção à Santa Fé, mas decidimos não ir até lá. Nosso objetivo seguinte era a cidade de Córdoba. Então, resolvemos passar por Esperanza pegando a Ruta 19. Mas, atrasamos um pouco porque erramos o caminho. Antes um pouco do meio dia, paramos em um posto onde tinha um restaurante. A fome bateu e resolvemos comer gnocchi. Pagamos 57 pesos. As três cocas que bebemos custaram mais que o prato de massa. A bebida na Argentina é bem mais cara que no Brasil, com exceção do vinho.
Já na ruta 19, ainda na Província de Santa Fé, fomos parados pela polícia e os agentes começaram a revistar toda a nossa bagagem. Como a documentação estava em ordem, procederam a uma revista minuciosa, sinalizando que estavam a fim de obter propina. Já tínhamos tomado conhecimento que havia policiais corruptos nessa região da Argentina e ficamos expectantes, aguardando o bote. O policial cismou com o meu notebook e falou que teria que apreendê-lo, uma vez que não tínhamos declarado a propriedade do mesmo na alfândega. Alegamos que era instrumento de meu trabalho, como advogada, mas não adiantou. Mas, ele não tomou atitude nenhuma, ficou enrolando, esperando que oferecêssemos uma recompensa. Eu havia rezado, implorando a ajuda dos meus anjos da guarda e penso que eles resolveram agir. Por incrível que possa parecer, parou um carro e dele desceram duas pessoas. Um rapaz veio até nós e perguntou o que estava acontecendo. Era brasileiro, o garoto. Contamos o que estava ocorrendo e ele nos disse para não fazer nada e aguardar. Voltou daí a pouco com um senhor moreno, argentino, que disse trabalhar na embaixada brasileira, em Assunção. Ele deu a maior bronca no chefinho dos agentes – os dois larápios tinham saído de fininho – dizendo que os policiais não tinham nada que apreender um instrumento de trabalho. Falou que os argentinos daquela região estavam mal vistos, em razão desse tipo de procedimento, que era um absurdo total a atitude de molestar brasileiros, o que estava prejudicando o relacionamento entre os dois países. Foi uma senhora bronca, não conseguimos entender tudo o que ele falou, mas vimos que exigiu que o policial nos liberasse de imediato, com pedido de desculpas.
Saímos aliviados, mas estressados, com o ocorrido, eu intimamente agradecendo aos céus a grande ajuda. Com esse atraso, vimos que nosso objetivo de chegar a Córdoba não seria possível. Assim, paramos num hotelzinho à beira da estrada chamado Devoto, que tinha o básico indispensável: garagem, cama razoável, banheiro limpo, TV simples e até secador de cabelo. Estávamos muito cansados, mas mesmo assim demos uma saída (estávamos em um vilarejo) procurando alguma coisa pra comer, mas não encontramos nada. Voltamos ao hotel e comemos um sanduíche.

                                                                                                                                            27/12/2007
Com a quilometragem do Troller marcando 18.966 km saímos, às 07:27 do hotel, depois de tomar o tradicional desayuno argentino: café com leite, medias lunas (croissant), torradas, manteiga, geléia e doce de leite. Já no início do caminho, decidimos mudar o trajeto que tínhamos planejado, passando ao largo de Córdoba, indo direto pra Mendoza. Só que resolvemos fazer um caminho mais longo, passando pela serra. Foi uma idéia muito feliz. Rodamos por uma estrada mui linda, várias localidades mui belas e dois lagos maravilhosos. Antes de pegar a estrada sinuosa, passamos por plantações de girassóis lindíssimas.
Paramos para fotografar e também compramos queijo e salame, que degustamos no jipe, com a idéia de não perder tempo almoçando.
Passamos nas localidade de Villa Maria, Rio Cuarto, Villa Mercedes, San Luis (uma cidade maior), La Paz, La Dormida, Gobernador, Santa Rosa e San Martin.

Chegamos bem cansados em Mendoza. Não tivemos dificuldades para encontrar o Hotel San Martin, que havíamos escolhido por sugestão de um dos nossos guias de viagem. Temos dois, que têm sido de grande valia. Queríamos um hotel bem localizado, com os serviços básicos e que tivesse internet. O San Martin atendia a esses requisitos. Não observamos, entretanto, que o apartamento não tinha frigobar. Outro contratempo foi o fato de não termos trazido adaptador para as tomadas. Na Argentina, eles usam há tempos, o sistema de três pinos. Fomos a um supermercado (Carrefour, que familiar!), mas não encontramos o adaptador. Na volta, paramos em um restaurante perto do hotel e comemos um assado e bebemos uma cervejinha.
Mendoza pareceu-me uma cidade agradável e bem simpática. Segundo o guia, a cidade tem 110 mil habitantes, mas com o concurso dos distritos vizinhos, que integram a grande Mendoza, atinge cerca de um milhão. Vimos muitos turistas. Aqui é o ponto de encontro de alpinistas que pretendem subir o Aconcágua, que fica a 180 km da cidade. A cidade está, portanto, aos pés da Cordilheira dos Andes. Pretendíamos, no dia seguinte, visitar algumas bodegas, degustar e comprar vinhos, que são orgulho nacional da Argentina. 70% dos vinhos argentinos são das vinícolas de Mendoza. Ficamos hospedados no micro centro da cidade, bem na Plaza Independencia. Vi uma feirinha noturna, na praça, que me despertou o desejo de fazer uma visitinha.




segunda-feira, 6 de junho de 2011

De Goiânia ao Fim do Mundo

                                                 
                                                                       22/12/2007 

Saímos de Goiânia as 05:40 h do dia 22 de dezembro de 2007. Tínhamos o roteiro da viagem mais ou menos idealizado, com o objetivo de conhecer os lugares que julgávamos mais interessantes no lado sul da nossa América, mas não era um roteiro fechado. Tudo ia depender do que encontrássemos pelo caminho. Na saída, a quilometragem do Troller estava em 15.888 km rodados. Paramos em Hidrolândia para comprar água. Tavinho queria abastecer somente no Posto Alvorada, em Goiatuba. Passamos por dois postos, mas ele não quis parar. Resultado: quando ainda estava longe do objetivo, a luz do combustível acendeu e ficamos com medo do jipe parar sem óleo. Ficamos torcendo para aparecer outro posto o que, finalmente, aconteceu quando estávamos no finzinho da reserva. O posto era do outro lado da pista. Atravessamos e colocamos apenas 20,00 porque o teimoso queria parar no Alvorada. Enfim, paramos onde ele desejava e, além de cuidar do Troller, também aproveitamos para fazer o nosso desjejum. Prometi a mim mesma que não permitiria  que isso acontecesse novamente. Em viagem de carro, não se pode descuidar do combustível, principalmente no nosso caso, com motor a diesel e viagem rumo a lugares nunca antes visitados. Temos que completar o tanque  sempre que encontrarmos um posto de qualidade porque normalmente não dá pra saber quando encontraremos o próximo.
Paramos mais três vezes durante o dia para lanches rápidos. Decidimos não almoçar para ganhar tempo no primeiro dia, uma vez que o nosso objetivo era estar em Foz do Iguaçu para passar o Natal. A 10 Km da divisa do Paraná abastecemos o carro novamente, quando verificamos que o jipe fez mais de 10km por litro, apesar de mantermos uma velocidade um pouco acima do normal. Chegamos a Londrina/PR às 19 horas e nos hospedamos no hotel Cedro, na Av. JK. Tomamos um banho e saímos para comer uma pizza em local próximo. Minha filha Priscila ligou contando que estava terminando de fechar a bagagem. Ela embarcaria naquela mesma noite para a Holanda, para o batismo do priminho Rafael. Fomos dormir cedo porque a idéia era chegar rápido a Foz a tempo de almoçar na Argentina. Em viagem anterior que fizemos à terra das cataratas, almoçamos todos os dias em Puerto Iguazu. Vale a pena: carne excelente e preço melhor que o nosso.

                                                               23/12/2007      

Por causa do café da manhã, terminamos saindo de Londrina às 07:25 h. A quilometragem do jipe era 16.861, ou seja, tínhamos rodado no primeiro dia 973 km. Boa arrancada! No primeiro pedágio, em Arapongas, erramos de estrada. Pegamos para Apucarana e só descobrimos o erro quando vimos que estávamos em estrada de pista simples. Resultado: demos uma volta, passando por Cambirá e Jandaia do Sul e voltamos para a pista dupla em Mandaguari. Como havíamos caprichado no café da manhã, só paramos para comprar água e refrigerantes e usar o banheiro. Chegamos a Foz às 14 horas, depois de rodar um pouco mais de 500 km. A distância entre Londrina e Foz é 495, mas devido ao erro de estrada, aumentou um pouco. Fomos direto a Puerto Iguazu, almoçar no “El Quincho Del Tio Querido”, restaurante que já conhecíamos de nossa estada anterior. Gastamos 26 euros, que na verdade terminou sendo mais porque o garçom voltou o troco em pesos, fazendo uma conversão bem favorável pra ele. Dos 12 pesos que ele nos voltou, deixamos 2 com o vigia do estacionamento. Nosso hotel em Foz foi o Harbor Colonial Iguazu, que fica na Rodovia das Cataratas, após a entrada do aeroporto. Já tínhamos reserva, aliás esta foi a única que fizemos para a viagem. Nos demais locais, a idéia era chegar e procurar hospedagem. Tomamos um banho e descansamos. À noite saímos para uma voltinha pela cidade, compramos bolachas e refrigerantes para abastecer o frigobar. No hotel não havia nada diet. Entramos numa lanchonete que já conhecíamos da outra visita à cidade e fizemos um lanche. Voltamos para o hotel e enquanto eu fazia anotações no diário, Tavinho desabou na cama e dormiu em dois minutos.

                                                                                    24/12/2007

Após o desjejum, demos uma volta pelas instalações do hotel, que é bem grande, com uma bela área de lazer, que possui, inclusive, piscina coberta e aquecida. Mas, estava  com uma certa aparência de abandono, sinalizando que o local já tivera dias melhores. Primeiro contratempo: descobri que tinha perdido meus óculos de sol com grau, provavelmente  esquecidos no restaurante argentino. Assim, saímos do hotel e fomos em busca de uma ótica. Felizmente, eu tinha a receita na bolsa e por mais sorte ainda, encontramos na Ótica Cristal uma moça que, muito gentilmente, ligou para diversas óticas até encontrar uma que tinha lentes com o meu grau porque não havia tempo para fabricá-las. Quanto ao modelo dos óculos, tive que me contentar com um bem básico, que era o que poderia ser adaptado para as lentes encontradas. Dei-me por feliz! Enquanto esperávamos pelos óculos, andamos a procura de um cabo para o nosso travel cooler. Não encontramos, mas em uma oficina um rapaz se ofereceu para fazer uma adaptação no nosso, que voltou a funcionar. Mas, foi por pouco tempo. Pelo jeito, não teríamos bebidas geladas no carro durante a viagem. Ao meio dia, pegamos os óculos e rumamos para Puerto Iguazu, onde voltamos ao El Quincho, mas falaram que não encontraram os óculos. Fomos a uma farmácia, onde Tavinho comprou seus remédios. Ele usa uma medicação para o coração, que ainda não tem no Brasil, mas na Argentina vende sem receita. Comprei um pacote de alfajores e fomos almoçar. Experimentamos um restaurante que ainda não conhecíamos. Pagamos 160 pesos (cerca de cem reais) por um senhor almoço, com as bebidas e gorjeta. Antes, na fronteira, tínhamos feito câmbio para não sermos lesados novamente. Trocamos 500 euros por 2.200 pesos e 100 dólares por 310 pesos. Em um supermercado comprei pilhas para a lanterna, shampoo e condicionador, tudo por 30 pesos.
À noite, decidimos participar da ceia de Natal no hotel. Estava muito cheio o salão, ficamos com a impressão que o número de convivas superou a previsão e o serviço deixou a desejar, mas conseguimos ficar satisfeitos. Antes, tínhamos conseguido falar com a Priscila e Luiza, minha irmã, na Holanda e Tavinho falou com mãe e o irmão em São Simão/SP. Não consegui falar com Tarsila, minha caçula, que está no Rio Grande do Sul e não usa seu celular fora de São Paulo, nem com  Gustavo e Patrícia, meu filho e nora, que moram em São Paulo.
Fui dormir desejando mentalmente um Feliz Natal para todos nós, e pedindo a Deus uma viagem feliz e sem problemas.
                                                                                        25/12/2007

Entrando na Argentina
Saímos de Foz do Iguaçu às 07:30 h. No painel do carro, vimos que marcava 17.565 km, ou seja, tínhamos rodado, desde Londrina 704 km. Era 25 de dezembro e na aduana não havia ninguém para ser atendido. As agentes foram muito gentis e quando souberam que iríamos até USHUAIA ficaram surpresas e perguntaram se tínhamos mapas. Recomendaram que abastecêssemos sempre porque há longos trechos sem postos na Patagônia. Nenhuma novidade pra gente. Nos pediram apenas a Carta Verde, documento indispensável para rodar pela Argentina. Tiramos fotos na saída, aparecendo a aduana.